quarta-feira, 18 de abril de 2012

ABHINAYA - Festival de artes da Índia


PREPARAÇÃO FÍSICA NO BHARATA NATYAM [PARTE 2]


                Quando dançamos corpo, mente e espírito estão conectados. Por isto a dança também é considerada uma forma de yoga. Não podemos falar de anatomia, cinesiologia, fisiologia sem levar em consideração a mente que leva os sinais para nossa musculatura. E não podemos falar de expressão, sem falar do espírito, da alma. Nós somos um todo, podemos dividi-lo em partes, mas nunca elas estarão separadas uma das outras.
                Agora, vamos ver um pouco de anatomia e fisiologia. O interesse por descobrir o quê há em baixo de nossa pele vem de muitos séculos atrás; mas à partir do século XI e XII, particularmente, em Bologna, Paris e Montepellier, a anatomia tomou um novo impulso e não parou mais de evoluir.

                O Bharata natyam exige muito a musculatura das pernas e é delas que vamos falar um pouco.
                A posição básica da técnica é o aramandi, onde os joelhos estão flexionados com rotação externa da coxa. Podendo ser ayatam (quando os calcanhares estão juntos), aleedam (quando a direita está no paralelo), preganam (uma das pernas fica esticada ao lado), presitha (os calcanhares estão separados), prathyaleedam (igual ao aleedam, mas com a esquerda no paralelo), swasthikam (quando uma das pernas está na meia ponta), motitham (pulo na meia ponta no nível do chão e abaixa um dos joelhos), samsuchi (os dois joelhoes estão no chão) e parshwasuchi (apenas um joelho no chão). Todos os passos nestas posições exigem muita força e resistência muscular.

                Nas figuras abaixo podemos ver todos os músculos:



    
                O sistema nervoso central (SNC) é responsável pelas contrações reflexas e pelos movimentos voluntários controlados. Quem transmite, através de energia elétrica, a informação do cerébro para o músculo é  oneurônio; e quando está conexão acontece chamamos de sinapse.
                “A seleção e a realização dos moviemtnos voluntários envolve uma interação entre o córtex pré-motor, os gânglios basais, o tálamo e o córtex motor juntamente com o cerebelo, que age como ‘comparador` para se ter a certeza de que estão sendo realizados os moviemntos almejados.” ( FOSS; KETEYIAN, 2000: 118)
                O aprendizado das habilidades motoras possui um processo complexo, o qual ainda, não se compreende por completo. Quando há um aprendizado motor, existe um “marco” permanente no tecido neural, resultado das repetidas estimulações da prática. Por isto, que com o tempo, dizemos que o movimento ficou automático, que não precisa pensar nele, “ele saí sozinho”; o movimento ficou memorizado.
                As fibras musculares podem ser de lenta (Tipo I) ou rápida (Tipo II) contração, e de maior capacidade aérobica ou anaeróbica. Segundo Foss e Keteyian (2000) uma fibra não pode ser Tipo I e II ao mesmo tempo. No Bharata natyam fazemos todos os adavus (passos) nas velocidades lenta, média e rápida, exigindo os dois tipos da mesma musculatura, exigindo resistência e velocidade de u mesmo músculo. Então, a musculatura exige um tipo de fibra em um primeiro momento, depois outra no segundo momento e quando o esforço é máximo todas as fibras são recrutadas; fazendo o músculo trabalhar com todo seu potencial.
                A força e a potência máxima podem gerar fadiga muscular, que pode acontecer na junção neuromuscular, no mecanismo contrátil (o próprio músculo) e no sistema nervoso central. Na junção neuromuscular é mais comum nas fibras Tipo II, ocasionada pela menor liberação do  transmissor. No mecanismo crontrátil pelo acúmulo de ácido lático, falta de energia e/ou falta de oxigênio e de um bom fluxo sanguíneo. É comum, nos alunos iniciantes de Bharata natyam, acontecer fadiga muscular durante a prática de apenas um adavu; justamente pelo motivo descrito acima, a musculatura é exigida em todo seu potencial.
                Compreender o funcionamento corporal, saber o quê fazer para melhorar a força, a resistência, a velocidade e evitar a fadiga terá consequência na técnica e por sua vez na performance final, onde corpo, mente e espírito estão em perfeita harmônia.

REFERÊNCIAS:
FOSS, MERLE L. KETEYIAN, STEVEN J. Bases fisiológicas do exercício e do esporte. 6 ed. Rio de Janeiro: Fox, 2000.
Rappresentare il corpo – arte e anatomia da Leonardo all’illuminismo. Guida alla mostra – Museo di Palazzo Poggi. Bologna.
RIGUTTI, Regina. Atlas ilustrado de anatomía. Trad. Magdalena Olmedda La Torre. Madrid: Susaeta, 2002.

Fontes eletrônicas:
www.nadanam.com
onlinebharatanatyam.com 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

POR QUE É IMPORTANTE SER BAILARINA?


                Tudo no universo está em constante movimento, a Terra, o Sol, a Lua, o homem...E este movimento sempre se transforma através do tempo e do espaço.
                Antes de falar, o homem dançou, por tanto a dança é a mais antiga linguagem humana. Foi através dos movimentos corporais que homens, mulheres e crianças se comunicavam entre si, com a natureza e com os deuses. Está dança foi se desenvolvendo em diversos lugares e épocas, e assim as diferentes técnicas e estilos surgiram, cada qual com seu  propósito.
                A dança passou das cavernas aos templos, dos templos para as côrtes, das côrtes para os teatros, e dos teatros para as ruas e para as escolas. Sendo assim, uma forma de comunicação, religião, entretenimento, lazer, arte, conhecimento e educação.
                Ser bailarina é fazer parte deste mundo tão diverso em suas formas e sentidos.
                Ser bailarina é trabalhar o físico, fazer alongamentos, criar força, resistência, equilíbrio, coordenação. É trabalhar o cerébro, a memória, o raciocíneo; decorar a sequência, contar a música, lembrar de como o movimento deve ser feito, tudo junto e em 1 segundo.
                Ser bailarina é levantar a cada queda, superar cada dificuldade, buscar a perfeição e ser capaz de acreditar que amanhã ela pode ser muito melhor do que foi hoje.
                Ser bailarina é expressar o que as palavras não podem dizer, é sensibilizar a alma das pessoas. É ser capaz de ultrapassar barreiras e dizer à todas as línguas e à todas as classes.
                Como diz Santo Agostinho:
“Eu louvo a dança, pois ela liberta as pessoas das coisas, unindo os dispersos em comunidade.
Eu louvo a dança, que requer muito empenho, que fortalece a saúde, o espírito iluminado e transmite uma alma alada.
Dança requer o homem libertado, ondulado no equilíbrio das coisas.
Por isso eu louvo a dança.
A dança exige o homem todo ancorado em seu centro para que não se torne, pelos desejos desregrados, possesso de pessoas e coisas, e arranca-o da demonia de viver trancado em si mesmo.
Ó homem, aprende a dançar!
Caso contrário, os anjos não saberão o que fazer contigo.”
               
                Por isto é tão importante ser bailarina!

sexta-feira, 6 de abril de 2012

PREPARAÇÃO FÍSICA NO BHARATA NATYAM


Atualmente existem muitas discussões entre a dança e a educação física. A educação física diz que dança é atividade física, por tanto, deve fiscalizá-la e a dança se defende dizendo que é arte. Sim, dança é arte, sou totalmente à favor desta posição, dança não é esporte, mas também não devemos esquecer que dança é também uma atividade física que necessita de conhecimento anatomico, cinesiológico, fisiológico, etc além da técnica.
Soares e Escobar (apud NISHLOKA e cols, 2007) dizem que a dança possui poucas informações sobre aspectos fisiológicos, morfológicos e médicos. Segundo Shah (2008) o ballet é tão rigoroso quanto a um esporte. E, eu me pergunto: e a dança indiana? Sim, a dança indiana Bharata natyam é tão rigorosa quanto ao ballet e ao esporte.
Na dança, na maioria dos casos, se preocupa apenas com a técnica; muitos acreditam que a preparaçào física acompanha a técnica, e que não há necessidade de um trabalho paralelo.
Mas, um treinamento não diz apenas a uma capacidade. Ele é compreendido pelo desenvolvimento da capacidade cardiopulmonar e neuromuscular, pela aquisição de técnica, pela apreensão da tática, pela mobilização das forças psíquicas, pela medicina desportiva e pela sua prevenção, pela intervenção social, pela alimentação, pelos hábitos de vida e pela recuperação, sendo que Tubino (1979 apud DANTAS, 1998) coloca o treinamento em uma pirâmide, onde a base é a preparação médica (manutenção das condições de saúde), seguida pela preparação física, preparação técnica, preparação tática e no topo pela preparação psicológica.
No esporte temos um profissional para cada capacidade a ser desenvolvida, na dança isto não ocorre, tudo fica a cargo do professor. Este é um dos motivos que vejo para a preocupação na dança ser apenas técnica. É raro uma escola ou uma cia que tenham diferentes profissionais para trabalhar com os bailarinos.
A preparação técnica é a execução máxima em eficiência com o mínimo de esforço sobre um determinado movimento, alcançado através de um conjunto de atividades e ensinamentos; sendo que a técnica em si proporciona a mais perfeita execução  de um determinado movimento ou atividade, segundo Dantas (1998).
Já a preparação física
constitui-se pelos métodos e processos de treino, utilizados de forma seqüencial em obediência aos princípios de periodização e que visam levar o atleta ao ápice de sua forma física especifica, a partir de uma base geral ótima. (apoud cit. 1998:37)

Para Spitz (1975) apud Weineck (2003) o desenvolvimento da técnica deve ser paralelo com a preparação física; o mau desenvolvimento de um, impede que o atleta atinja seu potencial máximo.
E pelas definições acima podemos ver que a preparação física é a base para um bom desenvolvimento da técnica.
No Bharata natyam, assim como no ballet, a musculatura da coxa e o joelho são bastante requisitados, e muitos bailarinos acabam tendo problema de joelho, e às vezes, até param de dançar.
Pela minha experiência percebi que muitos bailarinos não sabem como usar a musculatura da coxa para aliviar o joelho nas decidas (mohitham, samsuchi, parshwasuchi), outros não tem resistência para manter o aramandi, e outros ainda não possuem resistência aeróbica. Os exercícios de aula são anaeróbicos, as coreografias são aeróbicas, e acontece que muitas vezes o aluno não dá 100% nos ensaios e quando chega no palco quer fazer 120% e levando em consideração o aspecto psicológico, que também não possue um trabalho específico, acaba não aguentando.
Acredito, que o professor pode dar alguns “toques” para o aluno quanto à estas questões. Mas, acredito também que um trabalho paralelo de preparação física, levando em consideração o desenvolvimento cardiorespiratório, a força, a resistência, o alongamento, entre outros, iria melhorar o desempenho do aluno e/ou bailarino em sua técnica.
Quando uma raíz é boa, a árvore cresce forte e bonita. Se a preparação física é boa, cresce um bailarino forte com uma técnica “limpa”. E se o bailarino possui uma boa preparação física e uma boa técnica, as dores no joelho, a falta de resistência não vão existir em sua dança, e ele vai se preocupar apenas com o que tem para passar ao público: expressão!!!!!